Filete

Qual a melhor maneira de começar um blog do que um texto que fale da carne? Pois bem, este texto trata-se exatamente disso.

A vaca.

Do gado tudo se aproveita. O leite é usado para fazer manteiga, queijo, iogurte, cremes, sorvete, requeijão, cheddar, requeijão de cheddar, etc. do chifre ao estrume, nada sobra. Da produção de remédio ao adubo. O gado bovino compreende vacas, touros, bois, novilhas e bezerros. É o resultado dos mais brilhantes da criação. Veja bem, não é um animal qualquer. Eles ruminam. É genial ruminar. Imagine você, entediado, de boa, no trabalho, na aula, em casa vendo TV, então se lembra: nossa! Pizza meio pepperoni meio a moda estava sensacional. Então, faz um movimento muscular interno e traz às suas papilas gustativas todo o sabor de outrora. Sem custo nenhum, sem calorias a mais. Ruminar é a habilidade que pediria ao gênio da lâmpada, claro, sem gosto de vômito.

A vaca, não bastasse tudo isso, produz a carne suprema, a essência da carne: a picanha. Não farei uma digressão sobre o tratado da carne, ainda que com a soma de textos que imagino aqui se produzirá sobre o tema, talvez um compêndio possa ser feito. E eis que a vaca deve ser honrada.

Esse início foi para prestar uma singela homenagem ao maior dos animais.

Feita essa pequena digressão, passo a narrar algo que tem ocorrido comigo. Cada vez mais minha carne está menos passada. Estou chegando ao limiar do cru. Começou como algo simples:

Picanha, senhor? _Mostra uma carne bem mal passada._

Claro!! _NÃO SE NEGA A PICANHA. JAMAIS._

E eis que nasce uma predileção que tem alcançado o limiar de um tabu. Já vislumbro o dia em que o fogo não será mais necessário, mero acessório de um capricho de frescos. Nesse dia, um banquete em minha casa consistirá em uma mesa de mármore branco, de comprimento e largura maior do que um boi deitado, e de altura que permita a um homem adulto alcançar o centro da mesa. Sem dúvidas será uma mesa forte, maciça, com leve inclinação para dentro, mas imperceptível sem uma medição bem acurada. Na sua superfície, várias canaletas de aço inoxidável farão as voltas em torno e desembocarão em um recipiente. Um mestre cozinheiro fará as honras: um especialista picanhólogo com formação em carne. Na mesa uma vaca amarrada de tal forma que não possa mexer e deitada de lado. Nesta superfície ocorrerá um magnífico banquete. Uma ode à carne. Eis que todos tomarão seus lugares e o mestre postar-se-á no meio, próximo à barriga da vaca. Ela já esta limpa e higienizada, seus pelos foram raspados e ela foi lavada, honrada. Todos os convivas possuem seus pratos, eles são largos e espaçosos, para grandes nacos (a melhor definição para um pedaço indistinto de carne). Seus talheres são apropriados à necessidade. É um jogo de belas facas em diversos tamanhos e lâminas, bem como um serrote pequeno, tesoura para ossos e um martelo. talher dos convivas

É chegada hora. Nosso mestre termina de afiar teu instrumento de precisão necessário ao trabalho, um cutelo, belo e prateado. Tudo já está preparado para o corte. O animal foi pontilhado com molho barbecue nos contornos das partes.

Tudo muito asseado (sou muito severo com limpeza). Ele toma um belo punhal encurvado, de cerca de trinta centímetros de comprimento, devidamente afiado ao que se presta. Todos estamos com fome que poderíamos comer um boi. O chef então pergunta o que cada um quer. Finge gentileza e pede que uma mulher escolha. Fraldinha. É uma mulher escolhendo, não há muito o que dizer. Ele então pega seu instrumento, leva até um ponto determinado no pontilhado e faz um corte seguindo o tracejado. Um profissional, meus olhinhos brilham no acompanhar da lâmina, sinto a salivação da pré-picanhada. Nem muito profundo, para não comprometer o corte da carne, nem muito raso, para ser superficial, o corte segue o comando vivo de um mestre, apenas o necessário para que seja puxada a pele e laçado um naco rechonchudo de fraldinha. Seguidamente os convivas fazem seus pedidos. O mestre vai ofertando a todos e explicando onde pode-se encontrar os tipos de carne desejados. Em pouco tempo todos com suas largas facas começam a agir por conta própria. É grosseiramente bonito ver belas moças com mãos empapadas de sangue servindo-se. Para mim mesmo, a picanha. Não abriria mão dela. Sou o anfitrião, oras. Devidamente servidos, ninguém se levanta da mesa sem agradecer à vaca. Ela sofreu muito, tenho consciência disso, foi comida viva (ou pelo menos até parte do banquete). Mas não é o sofrimento dela a busca. E isso faz toda a diferença. Brindemos então à vaca, que morre por nós desde que o homem tornou-se sedentário.

Minha carne tem sido cada vez mais fresca, mais sangrando, mais viva. Talvez um movimento aparentemente sem volta. Um retorno às origens e ao primeiro sabor, que nos trouxe a inteligência pelo consumo da carne.

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